Sobrenatural
- silvanamouralivros7
- 31 de mar. de 2023
- 3 min de leitura
Atualizado: 7 de out. de 2025
Internet, e-mail, salto alto, corredor, gravata, pasta, powerpoint, gráficos, números, questionamento, persuasão, aperto de mão, sucesso. Lá se vai mais um dia de trabalho. A hora de saída lhe soa como um momento de parcial liberdade. Ao entrar no carro, fecha os olhos, põe as mãos no volante e respira fundo: mais um projeto aprovado; mais um dia vencido.
Depois de algumas quadras com a janela do carro aberta, o ar já não parece o mesmo. Desta vez, ao invés de trazer alívio, sufoca. “Este clima está insuportável!” pensa. Para piorar, um acidente faz com que o caminho para casa seja mais demorado que o normal.
Os carros se aglomeram ao longo da avenida. Nas ruas próximas vê-se os motoristas mais espertos se desviando como podem para escapar do trânsito. Outros desavisados são pegos de surpresa pelo mar de carros. Aí já não há mais nada a fazer senão praguejar trancado ao som do ar-condicionado.

Renata encosta a cabeça no volante e inspira como se fosse sugar todo o oxigênio do carro. Olha para o rádio e começa a apertar os botões sem controle. Entre uma estação ou outra escuta a voz do radialista impressionado com a extensão do engarrafamento. Resignada, ela se entrega a uma música instrumental qualquer e olha em volta.
Fora dos carros, o cenário era típico de uma cidade grande. Os vendedores ambulantes aproveitavam a oportunidade para empreender. Logo caminhavam entre as fileiras dos veículos anunciando seus produtos. Um deles aparece na frente de seu carro, tira alguma coisa do bolso e começa a limpar o vidro. Apesar de todo esforço e simpatia a motorista se mantém indiferente. A música agradável até ajuda a desviar a atenção do caos externo. Ela fecha os olhos e entra em seu mundo.
Enquanto suspira em agradecimento aos minutos de paz que se deu, abre os olhos e percebe a aglomeração à sua frente. Algumas pessoas saem apressadas dos seis automóveis, levando o que podem. Outras, mais desesperadas, deixam tudo para trás e saem empurrando as outras como se estivessem fugindo de algo. O guarda tenta em vão organizar minimamente os que passam, mas já é tarde. A confusão está instaurada.
Renata aproxima o rosto do vidro para tentar ver o que seja através da nuvem de fumaça. Sem sentir que há outra solução, sai do carro. Depois de alguns instantes de caminhada, para e se volta contra o fluxo.
Uma das pessoas corre em sua direção. Sem hesitar a empurra com inconsciente força e corre. Isso não foi o suficiente para assustá-la: ainda um pouco atordoada, ela se recompôs e, contradizendo a todos, seguiu caminhando em direção oposta. Parecia estar sendo atraída por um ímã.
A fumaça começou a sumir e sua visão ficou limpa outra vez. Ao longe havia uma pessoa tentando arrancar algo de dentro do veículo. Ela pressentia algo estranho e mesmo assim se aproximou. À medida em que se aproximava a sua visão ficava mais clara. Já não parecia ser uma pessoa. Não se parecia com nada que tivesse visto antes.
A criatura reagia de forma agressiva com a proximidade. Ela, sem timidez, se aproximou impelida por sua curiosidade. Os dois permanecem parados. Não é possível descrever por quanto tempo durou isso. Poderia ter sido um minuto ou uma eternidade. Ela tomou a iniciativa e deu mais um passo. Ele a seguiu.
À medida que a criatura caminha, começa a emitir uma luz. Tudo ao seu redor se afasta. É como se houvesse uma força repelente em si.
Renata repentinamente parou. As duas finalmente se aproximam e se tocam. Seus olhares se cruzam e tudo ao redor some. A criatura começa a falar com ela. Estaria tentando enviar uma mensagem ao mundo? Essas palavras… O que estaria tentando dizer?
-Senhora, senhora. Você está bem? - Perguntou o guarda. Ela olha para o lado e vê um grupo de pessoas. Grande parte são apenas curiosos. - Você está bem? - o guarda insiste. Diante de si só consegue ver o mesmo trânsito sufocante.
-Sim - respondeu depois de baixar um pouco o vidro. Agradeceu desconcertada e seguiu viagem outra vez.
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