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Armadilha

  • silvanamouralivros7
  • 31 de mar. de 2023
  • 5 min de leitura

Atualizado: 7 de out. de 2025

Acorda às 6h da manhã. Toma banho e troca de roupa. Caminha. Pega o ônibus lotado. Dorme em pé. Quando tem sorte, se senta. Quarenta minutos depois, escola. Um, dois, três, quatro tempos de aula com direito a intervalo. Almoço? Cachorro quente da esquina. O mais famoso do bairro. Sobremesa? Um trago de cigarro religiosamente compartilhado entre os amigos. Pausa. Uau, que gata. Voltemos ao cigarro e ao socialismo cubano. Muitas decisões importantes precisam ser tomadas neste momento.


"Onde vamos jogar vídeo game? Preciso montar meu álibi." pergunta Gu, cerrando os olhos como se estivesse planejando um crime. "Hoje não dá para mim, galera. Vou voltar para escola para terminar o trabalho em grupo…", responde Paulo, pondo a mochila nas costas de forma desanimada. "Vamos à sessão de jogos do shopping. Ninguém vai nos encontrar lá em plena quarta-feira. Vou ligar para o Fred.", adiciona Cris, pegando o telefone cheio de ânimo.

A sala de jogos é imensa. Ocupa dois andares da nova extensão do shopping. Nela há jogos o suficiente para manter uma pessoa há dias. Maravilhados os rapazes compram as fichas e percorrem o lugar para escolher o palco das suas disputas.


Há um simulador novo na sala. Na parede externa os desenhos de armas e atiradores anunciam a aventura. Há, no meio da confusão de cores, um desenho pequeno ao fundo que destoa dos outros. Gu acha estranho e chama a atenção para isso. Ao mesmo tempo grupo de pessoas sai do simulador empolgado. Ninguém o escuta.


"Valeu a pena?", perguntou Cris. "E se vale! Pode acreditar. Vale todas as suas fichas.", o outro exclama ainda eufórico com o jogo.


O interior do simulador é amplo. Há uma mesa com protótipos de equipamentos de proteção e armas. Cada um pega uma faca, uma pistola, luvas e o colete. Depois, se posicionam maravilhados em uma esteira. Todas elas tem extensões que se conectam aos braços e pernas. O colete e o capacete são cheios de sensores. Tudo tem o propósito de tornar a experiência o mais real possível. Na frente deles há um telão gigante que reproduz todas as cenas.


"Está decidido. O que tiver menor pontuação paga uma rodada de bebida a todos.", Cris propõe de forma zombeteira para provocar. "Vamos começar!"



A sala escureceu. Os 3 se colocam em suas posições. A tela ganha cor. Agora estão em uma cidade. É dia. Estão no topo de um edifício. Embaixo veem a rua cheia de pessoas. Todos estão vestidos formalmente, como se fossem ir ao trabalho. Parece difícil encontrar algum alvo desta forma. Decidiram descer. Antes, um deles pega o binóculos e analisa o entorno. Um dos elementos da lista caminha pela rua. Nem todos devem ser criminosos declarados. Este nem está disfarçado. “Assim é muito fácil!”, comentou Cris. “O alvo está na minha mira. Agora eu vou ajustar e... “Ah errei!”, esbraveja irritado. “Foi uma falha do sensor. Eu tenho certeza.” O vidro ao lado do alvo se quebra e todos correm. É um verdadeiro caos. Várias pessoas se abaixam e o alvo vai parar atrás de uma carro. Depois, furtivamente tenta caminhar ao lado de uma mulher, mas ela entra em pânico e corre. “Perfeito!” , Cris fala baixinho como se tivesse medo de espantar as pessoas. Prepara a arma novamente e... "O que houve?", Cris se questiona, vendo Fred acertar o alvo primeiro. "Você está lento hoje Cris. Adivinha quem vai me pagar uma cerveja?"


A vítima cai no chão. A pontuação aparece na tela e o cenário muda completamente. O segundo ambiente já não é tão belo. As ruas em volta parecem mal cuidadas. Há lixo no

chão. Em frente a uma das lojas é possível ver um mendigo dormindo. “Esses jogos são cada vez mais realistas”, pensou Gu. Seguiram juntos em cima de um prédio. Essa pode ser uma estratégia de defesa eficaz. Ainda não há grande movimentação abaixo. Decidiram descer lentamente. Fred vai na frente para analisar o espaço. Nada desta vez. A aparente tranquilidade não engana. Vai ser mais difícil. Há uma lista de alvos. Precisam encontrá-los logo. Gu tem a impressão de que alguém os está observando. Deve ser a tensão do jogo. Ele olha o prédio em frente e vê alguém parado como se estivesse a olhar de volta. Algo plenamente incomum para um jogo. “Quem programaria isso? Este sorriso de cumplicidade. Parece que está se comunicando comigo. Será? Isso não pode ser real.”, pensa atordoado.


As porta do cinema se abrem. As pessoas saem aos montes na rua. A pontuação aparece na tela. Alguém foi alvejado. Esta etapa, porém, está longe de terminar. Há mais alvos e todos estão embaralhados. Um se afasta do grupo e segue em direção a um beco. Seu parceiro corre, mas os jogadores são mais rápido e conseguem alcançá-lo. Enfim, o mendigo era o quarto alvo disfarçado. Um dos rapazes descobre em tempo e, assim, se conclui a segunda missão.


Todo o cenário muda outra vez. Agora estão em um parque. Recebem instruções para cercar uma festa particular. “Precisamos eliminar quatro alvos sem sermos percebidos.” - informa Fred de forma resignada. Os rapazes caminham em direção ao grupo lentamente para não chamar a atenção. Em seguida, se posicionam no topo das árvores para ter visão ampla. Lá estão as pessoas confraternizando e dançando. No meio do tumulto, Gu tem um deja vú. Aquele frio na espinha o toma mais uma vez. “Alguém está me observando!”, pressente. “Aquele sorriso malicioso”, murmura surpreso. O personagem segue apontando para ele e simula que o está alvejando.



"Impossível não ser para mim, mas como sabe que eu estou aqui.", ele questiona assustado. “Que brincadeira é essa?". Gu segue aturdido com uma onda de pensamentos. Assustado, recorre aos outros rapazes e fala sobre o ser misterioso que os está acompanhando no jogo. “Só há três pessoas aqui. Você está louco?”, questionam os outros com um ar incrédulo. “Está é tentando nos distrair para não pagar aquela cerveja. Não sabe perder.”, retruca Fred, duvidando da história.


Mas aquele rosto o persegue. Vê-se na tela que um alvo foi alvejado. Os outros dois se apressam para marcar pontos também. Sorrateiramente, Gu se aproxima do banheiro. O alvo está próximo, mas há duas pessoas com ele. É necessário esperar. Ele desce da árvore e tenta se aproximar mais. Alguém está atrás dele. Aquele rosto. Aquele sorriso. E a arma. Tudo se apaga. Há uma pane e a sala de jogos para de funcionar. Os rapazes seguem a iluminação de segurança e finalmente saem da sala.


………....


Fred e Cris procuram Gu em toda parte. Pensaram que o terceiro havia saído antes. Não conseguem compreender onde ele possa ter ido. Voltam a sala com uma lanterna. Procuram de novo. Fecham a sala de jogos. No dia seguinte lê-se nos jornais: sala de jogos interditada. Jovem desaparecido no dia 1 de novembro. A polícia guarda sigilo sobre o caso.





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