Crônica de um trabalhador
- silvanamouralivros7
- 24 de abr. de 2023
- 3 min de leitura
Atualizado: 7 de out. de 2025

Entro no trem e me jogo no primeiro assento como se o peso do mundo estivesse em minhas costas. Fecho os olhos, apoio a cabeça no vidro e medito ao som dos vagões. O leve balanço do transporte e o contato forçado com as pessoas ao lado já não incomodam. Com o tempo certos desconfortos passam a ser naturais. Fico encolhida em meu assento abraçada a bolsa de forma acolhedora e espero o tempo passar. Assim são os quarenta minutos diários de descanso até o próximo trabalho.
Todos ali expressam as mesmas caras cansadas de quem já está dando tudo de si desde as 4 da manhã. Alguns moribundos como eu se encostam no vidro e aproveitam a viagem para dormir. Outros se fecham em seu mundo mental. Miram a janela como se houvesse algo além de paredes escuras do lado de fora. Parecem estar vazios como se o stress do dia tivesse sugado todas as suas energias. No que será que estão pensando? Talvez em nada.
Um se destaca ouvindo uma música irritante sem fone de ouvido, completamente indiferente a todos. A canção é forte e contagiante. Ninguém reclama. Ninguém se importa. Ninguém mais ouve.

A porta se abre. O trem fica um pouco mais cheio. O limite máximo já foi excedido, mas isso não importa. Todos se ajeitam, se apertam e se ajustam. O desconforto não é mais forte do que o desejo de chegar em casa. Não há mais nada que se possa fazer.
No meio de tudo, surge ela. Algo em sua expressão denota que o dia foi difícil.
O stress acumulado da semana atinge o nível de deixá-la entorpecida, mas não apaga a sua beleza.
Sua pele escura, olhos rasgados e negros. Penetrantes. Misteriosos. Capazes de revelar o que se esconde para além do universo. Dialogam em perfeita harmonia com os lábios grossos e um leve sorriso quase infantil. Seu cabelo largo e escuro se estendem até a cintura. É uma beleza exótica. Destoa de toda falta de vida que contagia o lugar. Indigena? talvez. Olho para aquela beleza exclusiva e olhar vivo. Penso em mil e uma histórias. Fantasio em minha mente os milhares de contos de aventuras e de amor em que ela poderia estar.
Quem sabe uma Anita Garibaldi correndo em seu cavalo com cabelos longos, revoltos e esvoaçantes. Ou uma espiã disfarçada de operária, avaliando a rede metroviária da cidade. Quem sabe vai desvendar um grande crime. Ou será uma princesa cheia de jóias que se deliciando com a vida normal da cidade.
As portas se abrem. As pessoas saem lentamente. Arrastam-se em derrotadas pelo dia cansativo. Elas vão sendo empurradas umas pelas pelas outras em direção à saida. Parece que não conseguiriam caminhar sem essa energia coletiva inconsciente.
Ela sai também e eu a acompanho discretamente com o olhar. Quero aproveitar o máximo possível da vida real dessa personagem que se monta em minha mente. Há uma lanchonete no caminho. Ela para, cumprimenta um funcionário, entra e põe seu uniforme.
-Bom dia, senhora.
-Bom dia! Um café, por favor!
Depois de 8 horas de trabalho, isso não é força de expressão.
A vida na grande cidade é agitada. Não dá para se manter com menos de 2 empregos. Essa viagem é só a transição de jornadas. Logo começa o outro expediente.
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