A espiã
- silvanamouralivros7
- 26 de mar. de 2023
- 4 min de leitura
Atualizado: 7 de out. de 2025
O céu está cinza. Não se sabe ao certo se a cor reflete o clima, ou a poluição dos carros. Talvez os dois. Nas ruas, nota-se nas caras fechadas a seriedade de quem precisa cumprir suas obrigações do dia: trabalho, trabalho e mais trabalho. As pessoas caminham rápido de todas as direções e se esbarram. Ninguém pede desculpas. Não há tempo. Ninguém percebe o mendigo a levantar a mão pedindo esmola e nem o cachorro raquítico de fome ao seu lado. Não se vê nada além do ponteiro do relógio. Todos se movem na velocidade dos carros.

Em meio ao anonimato, Marta surge com a sua jaqueta de couro, calças apertadas, botas e óculos escuros. O look se destaca em meio aos ternos e saias sociais, mas combina com o ar impessoal da cidade. Assim como os outros, ela caminha rápido com ar indiferente mascando com insistência o chiclete já sem açúcar. Seu único objetivo é chegar o mais rápido possível no trabalho e manter a rotina de atraso na marca de 20 minutos habituais.
De repente ela sente um empurrão. O efeito brusco fez com que perdesse a orientação. Acabou cambaleando sobre os próprios pés. Atordoada, ia caindo em direção a rua, mas alguém segurou seu braço a tempo de evitar que fosse atropelada.
Tudo foi muito rápido e quando deu por si, estava no chão ao lado de um ciclista que, provavelmente, teve que fazer movimentos rápidos para parar. Olhava para si mesma na tentativa de entender o que aconteceu e sentir se realmente estava bem. Sem remédio, se levantou constrangida limpando a roupa rapidamente na esperança de que ninguém percebesse o que ocorreu.
O rapaz que a segurou tentava de alguma forma ajudar, recolhendo sua mochila rasgada e alguns pertences que se espalharam a sua volta. Ela, mais que depressa, agradeceu sem nem reparar muito no rosto dele. Apenas caminhou o mais rápido que pôde para evitar o olhar dos transeuntes que viram o ocorrido.
Depois de duas ou três quadras, já sentia o alívio do anonimato outra vez. Finalmente entra na estação de metrô e respira fundo. Nada aconteceu!
Mal se jogou no assento, sentiu os efeitos colaterais da queda. A dor causada pelo puxão no braço volta e a faz lembrar da vergonha passada outra vez.
Que manhã difícil! Como se não bastasse o stress das contas acumuladas e da vizinhança barulhenta. Agora isso! Se a dor continuar não há jeito. Terá que faltar ao trabalho para ir a um hospital.
Enquanto resmunga em pensamento, coloca um fone de ouvido e fecha os olhos para se isolar do ambiente. Ainda assim não consegue relaxar, não consegue se concentrar na música, não consegue fugir de si mesma. Abre os olhos e mira acidentalmente uma mulher que está a sua frente. Desvia o olhar para o chão em seguida para não encarar a pessoa, mas fica aquela sensação no ar. “Acho que tem alguém me observando”, pensa. A tentação de retribuir é enorme.
Passam-se 20 minutos de viagem e o estranhamento não vai embora. Lá está aquela mulher plantada a sua frente com seus traços enigmáticos. O cabelo longo cobre parte do seu rosto, mas não esconde seus olhos castanhos impenetráveis. Parece estar procurando algo. Disfarça. Volta-se para um lado e para outro sutilmente. Por fim, volta a encarar. Assim que o banco ao lado de Martha fica vago, ela se senta.
“Dê-me o pendrive”, diz a desconhecida sem rodeios e apresentações. Marta responde com uma expressão interrogativa e surpresa. Certamente é um engano. “Dê-me o pendrive que está na sua bolsa”, repetiu. A mulher abre a bolsa discretamente e lhe mostra uma arma. Martha se levanta em um pulo e se afasta assustada. Desorientada, empurra as pessoas como se fossem um bloqueio à sua passagem. Tentando ganhar tempo, caminha olhando para o letreiro na esperança de estar perto da próxima estação. Precisa sair dali logo.
Em meio a música de fundo do metrô, ouve-se um disparo. Cambaleando, Martha prossegue, mas não vai longe. Seu corpo parece estar mais pesado. A dor é insuportável. Sem mais resistência, cai no chão.
-Você está bem?, pergunta o rapaz de olhos azuis. Ela o mira por alguns instantes ainda confusa. Não sabe o que aconteceu.
-Tentei te segurar, mas tudo aconteceu muito rápido. Acho que você bateu com a cabeça no chão. Acabei de chamar uma ambulância. Não se mexa.
Ainda confusa, ela permanece deitada. Parecia tão real.
Um grupo de pessoas a observam curiosas na expectativa de ter alguma história interessante. Precisam preencher suas vidas monótonas. Dentre elas, surge uma mulher de cabelos longos e olhos impenetráveis.
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