A forasteira
- silvanamouralivros7
- 29 de nov. de 2020
- 3 min de leitura
Atualizado: 14 de nov. de 2024

Há quem diga que o nome Aniel seja muito comum em alguma parte do mundo. Seria igual àqueles que se encontra mais de cem vezes em um dia de busca no cartório. Se fosse nome composto, a quantia iria ao infinito. Imagine só: Aniel, Aniel Assunção, Aniel Clara, Aniel Dolores, Aniel Maria e as mais combinações que o nosso limitado alfabeto permitir. A banalidade do nome, entretanto, nada tem a ver com a marca desta que estou prestes a apresentar. Seus atributos, de longe, a destacam de qualquer mulher que o leitor deste texto já possa ter visto.
Ninguém sabe como Aniel foi parar nas casas coloridas do Pelourinho. Apenas despertaram e lá estava ela, como se conhecesse tudo e todos desde sempre. A tal cubana caminhava pela rua com a mesma liberdade das Claras, Janices e Alines. Seu surgimento é misterioso. Os mais religiosos creem que ela foi guiada e protegida por Iemanjá. Outros já são mais criativos e aventureiros. Afirmam que ela remou por dias embaixo de sol e chuva, sendo acompanhada apenas por sua bússola. São tantas as estórias e tantos os desenlaces que superariam Homero na criação de sua Odisséia.

Enquanto isso, a misteriosa criatura passeava pelas ruas e falava com todos usando o dialeto baiano com a fluidez de um nativo. O único traço que a distinguia era a sua capacidade de tornar lânguida mais trivial palavra. Assim que, se ia à venda comprar um pote de mel, o seu pedido chegava aos ouvidos dos funcionários como o canto de uma sereia. Estes a cercavam e ofereciam de tudo apenas pela satisfação de ouvir um “grácias, és muy amable!”. Este espanhol dos trópicos é mesmo de derreter a todos!
Até mesmo as mulheres sentiam algo que não podiam explicar diante de sua presença.
Aniel definitivamente inspirava comoção nas pessoas. Quase não parecia real. Até mesmo as mulheres sentiam algo que não podiam explicar diante de sua presença. As beatas olhavam suas curvas perfeitas sutilmente cobertas por um conjunto florido e pediam a não se sabe quem (Deus ou o Diabo) que julgasse esta pobre alma lasciva. As casadas eram as que mais sofriam. As filhas de Hera reagiam a sua presença com fúria. Estas, beliscavam e davam tapas em seus esposos pelo disparate de se contorcer só para acompanhar a cubana com o olhar. Por fim, muitos faziam o sinal da cruz para afastar o desejo que emergia na sua presença.
E nada adiantava…
O fato é que Aniel estava lá. Vivia em uma casa modesta na frente da Igreja Rosário dos Homens Pretos. Era lá que pedia a benção ao padre, à babalorixá, à Virgem da Caridade e a todas as divindades mais que a ela pudessem ouvir. A moça era mesmo muito devota. Toda terça-feira se submetia ao som do atabaque e ao sinal da cruz, na esperança de ter suas preces atendidas. Embora despertasse os mais variados desejos, ela mesma era consumida por apenas um: o de transformar aquele território de estrangeiros no seu novo lar.

Ao entardecer, Aniel se sentava virada para o norte. Ora feliz, ora melancólica pensava em suas reais histórias e naqueles que lá ficaram. Todos os dias contemplava o horizonte com seus olhos semicerrados na tentativa de achar algum resquício da sua terra.
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