As 5 lições que aprendi viajando sozinha
- silvanamouralivros7
- 21 de dez. de 2020
- 5 min de leitura
Atualizado: 14 de nov. de 2024

Sempre senti uma atração intensa pela palavra viagem. Lembro-me de que quando era criança, uma pessoa me perguntou o que eu queria ser quando crescesse. Eu respondi sem exitar: “Vou ser aeromoça. Assim vou poder conhecer vários países. Sempre vou estar em um lugar novo.” As minhas escolhas não me levaram por este caminho profissional, mas encontrei outras formas de realizar o meu sonho de fazer uma viagem.
Em 2016, depois do fim de uma grande experiência de trabalho, decidi que precisava cair na estrada e aguçar o meu espanhol. Fiz um minucioso planejamento para passar, pelo menos, 1 mês na Bolívia e diluir o resto da viagem entre o famoso Deserto do Atacama e Machu Picchu. Mas antes mesmo de sair do Rio de Janeiro, tratei de desfazer tudo. Decidi desistir da Bolívia e ir à Argentina.
Essa foi a decisão mais bem-sucedida que tomei sobre a viagem, pois foi aí que começou toda a aventura que me levou às 5 lições que quero compartilhar.
Lição 1: Aprendi a passar mais tempo comigo mesma
Eu tinha muito medo de ficar sozinha. Sempre fui uma pessoa introspectiva e tinha a constante sensação angustiante de que era solitária. Em um mochilão, entretanto, conhecemos pessoas completamente fora da nossa rotina e criamos um contato diferente em cada canto do mundo. Parece difícil pensar em solidão em meio a tanta gente nova, mas há pessoas que se sentem só no meio daqueles com os quais conviveu a vida toda.
Por mais que se conheça inúmeras pessoas e se estabeleça laços com algumas delas, a convivência tende a ser efêmera porque em um mochilão a pessoa muda de lugar várias vezes. É claro que é possível manter o contato. Tenho amigos com os quais me comunico constantemente. No dia a dia, entretanto, tive que entender que eu era a minha companhia mais constante. Ter paz ao perceber isso me levou ao próximo aprendizado.
Lição 2: Aprendi a deixar ir
Como sempre fui mais reservada, era normal para mim ter poucos amigos. Por isso, os conservava com dedicação. Sentia muita confiança e afeto por eles. Por perda de afinidade ou logística, acabei me afastando de alguns e, a princípio, isso me causou muita dor. Mas eu aprendi.
Na viagem, conheci pessoas incríveis e passei a admirá-las muito. A questão é que, às vezes, eu passava uma semana intensa em um lugar; outras vezes, um ou dois meses intensos em outro. Dentre os que conheci, juro que levaria mais da metade na mala comigo se fosse possível. Aprendi, entretanto, a carregar as melhores lembranças delas comigo e dar espaço para o novo em minha vida.
Não é fácil deixar ir. Para tanto, precisei decidir mudar a minha mentalidade. Quando entendi o processo, passei a viver o tempo com as pessoas com mais qualidade ao invés de me fechar em um ciclo de saudade e solidão.
Lição 3: Aprendi a confiar nos meus instintos
“Lembro da minha chegada em Buenos Aires às 7:30 da manhã de um dia qualquer da semana. As pessoas caminhavam rápido para chegar ao trabalho. Enquanto isso, eu comprei o café da manhã perto do terminal rodoviário, caminhei até a praça mais próxima, me sentei e comi com calma. Admirei a beleza da cidade e obsservei as pessoas. Tomei o meu tempo. Abri o mapa para escolher o hostel em que iria ficar. Não tinha planejado nada. Apenas estava lá.”
Minha vida era bem comum: ordenada, previsível e sobrecarregada de atividades. Na correria de um dia normal, respondia a algumas situações automaticamente. Estava presente, mas nem sempre conseguia apreciar o momento. Afinal de contas, a agenda estava sempre lotada, tendo espaço aberto apenas para as seis horas de sono.
Ter tempo para apreciar a vida sem planejamento me proporcionou autoconhecimento. Entendi que a sobrecarga de atividades apenas bloqueava a minha percepção e me dava uma sensação falsa de produtividade. E como essa rotina me deixava cansada!
Na viagem, eu finalmente pude ficar em silêncio e me ouvir. Passei a prestar atenção no que sentia de bom e de ruim. Percebi que estava ansiosa e que me cobrava demasiadamente. Comecei a respeitar mais as minhas emoções ao invés de tomar decisões pautadas em uma lógica de certo e errado e revi os valores que não me ajudavam mais a crescer.
Sei que a impulsividade nos leva a tomar decisões das quais podemos nos arrepender. Hoje creio que o equilíbrio está em se guiar pela razão, mas também dou espaço para aquele sexto sentido me mostrar o que pode estar errado. Funciona muito bem.
Lição 4: Aprendi que eu posso mudar de ideia
Já contei lá em cima que mudei de ideia antes mesmo do início da viagem, né. Consegui mudar o plano sem sentir dor, mas nem sempre foi assim.
Para uma pessoa rígida (e teimosa), mudar de ideia significa correr o risco de parecer incoerente. Sentir que tomou uma decisão errada ou deixar transparecer que não sabe para onde vai é doloroso e, por isso, muita gente segue teimando em um caminho torto mesmo.
Com a viagem, deixei a mente aberta para a sugestão de mochileiros mais experientes. Lembro-me que o primeiro conselho que segui foi o de uma veterana na prática que me aconselhou a comprar a passagem só de ida. Ela sabia que eu iria conhecer muita gente no caminho e isso moldaria o trajeto. Assim, colecionei bons conselhos que me fizeram mudar a rota, voltar a lugares e ir a países que não tinha planejado.
Resultado: Uma viagem de 2 meses virou uma aventura de 6 meses e me deu uma experiência que vou levar para a vida toda. Ser indecisa nunca valeu tanto a pena.
E, por fim…
Lição 5: Aprendi a respeitar o meu tempo

Dá para acreditar que eu já tive medo de viajar sozinha? Hoje eu alcancei o desprendimento de conseguir morar fora do país sem sofrer, mas isso foi um processo.
O caminho de realização do meu sonho se construiu com mudança de mentalidade, mudança de atitude e pequenas vitórias. A viagem pela América Latina foi apenas parte disso.
Eu tive uma educação bem tradicional e não quero me manifestar contra isso. Apenas sentia que não me encaixava. Havia algo naquele projeto pré-determinado de vida que não me satisfazia. Antes da viagem, me envolvi em várias atividades porque precisava achar o caminho e ser produtiva. Não percebi que estava apenas me ocupando sem entender o propósito. Eu só perdia tempo.
Precisei parar tudo mesmo. Depois do segundo mês de viagem eu deveria voltar, mas decidi seguir porque não me sentia preparada. Pela primeira vez não me pressionei para apresentar resultados a sei lá quem. Simplesmente vivi o momento. Respeitei o meu tempo e quando o tempo se esgotou, voltei. E voltei com tudo!
E só assim me fiz livre para viver os meus sonhos…
Hoje vivo a mais de dois anos em Portugal e tenho certeza de que seria difícil compreender todos os desafios que tenho vivido aqui se não fosse as experiências prévias. A viagem que descrevi não foi só física, foi espiritual também. Tenho as melhores lembranças e muito aprendizado.
A vida de expatriada tem seus altos e baixos e é mais intensa que uma rápida viagem. Ela se firma com paciência, coragem e sabedoria. Todos os lugares pelos quais passei me prepararam para encarar o grande salto de viver em outro país. Em breve estarei preparada para conquistar muito mais.
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